quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

i-jota é + legal que y



Meu pai comprou uma TV pra ver a Copa de 70. Philips. Ele ainda hoje prefere Philips. A Telefunken que compramos depois durou pouco. Eu tinha só 5 anos –quando chegou a Philips. P&B. Com um botão giratório pra tocar de canal. Ia muita gente ver os jogos lá em casa. Adultos. Eu via um pouco. Não sobrava muito espaço pra mim. Eu achava um saco. O Brasil ficou tri-campeão, mas eu não comecei a gostar de futebol por causa do tri. Eu era criança demais pra ser influenciado por aquela corrente pra frente. Em seguida, lembro do Jairzinho marcando contra Portugal, em 1972, e da despedida do Pelé, acho que contra a Iugoslávia. Eu tive TV, idade e interesse por futebol pra ver todas as despedidas do Pelé. E tinha 9 anos em 1974.
A Copa da Alemanha me marcou definitivamente. Vi tudo. Sei as escalações de Alemanha, Holanda e Polônia de cor. Lembro do Kakoko, do Haiti, de onde vi os principais jogos, de o quanto matei aulas, do Zagallo gritando “puta merda” contra a Alemanha Oriental do Sparwasser e do meio-campo da Argentina: Brindisi, Babington e Balbuena. Lembro da Holanda derrotando o Brasil e de até ter gostado daquilo, ainda que não tivesse traduzido para mim mesmo por qual motivo. E de torcer pra Holanda contra a Alemanha, contra a corrente, afinal não era de bom tom torcer contra quem ganhou do Brasil. A Holanda perdeu. A Copa de 74 foi a Copa da Holanda.
Só um tempo depois fui entender como a Laranja Mecânica se encaixava na minha vida: era desafiadora, diferente, vinha do frio, usava uma cor estranha e tão budista, laranja, e o goleiro era o número 8. Aquilo era modernidade, vanguarda, desafio. Eu, aquariano convicto, sempre gostei de flertar com isso. Nunca mais torci pra outra seleção depois de 74 –em 82 a Holanda não se classificou e o Brasil me decepcionou. Tudo bem, o Falcão era colorado, e tinha me feito sofrer muito nos anos 70, jogando pelo Inter –já falei isso pra ele, enquanto dividíamos um café na redação da Zero Hora.
A Holanda, do meu ídolo Cruijff, meu craque do jogo de botão, assim mesmo, com IJ em vez de Y, e o Ajax, de Cruijff, o cara que não tinha uma listra da Adidas do uniforme porque tinha contrato com a Puma, foram os times que fizeram a cabeça da minha geração.
Era o futebol total do genial Rinus Michels, e eu não tinha nenhuma memória afetiva que me fizesse crer que haveria algo melhor –e o Inter era o melhor time brasileiro dos anos 70, e o Grêmio tinha Beto Bacamarte e Vilson Cavalo, era bem apropriado ter alternativas do outro lado do oceano.
Dos 9 anos 29 anos não vi o decantado futebol brasileiro ganhar nada. E com 29, em 1994, ano do tetra, não tinha mais como mudar. Dei cambalhotas de alegria quando o Bergkamp empatou para a Holanda, contra o Brasil de Romário. E quando o Kluivert empatou em 98. E até chorei de alegria na frente da TV, outra Philips, de origem tão holandesa quanto a de 70, mas colorida, quando o Van Basten deu o título da Eurocopa pra Holanda, num sábado de manhã, 10 anos antes.
E o 17 do Real Madrid? Ruud Nistelroij, assim mesmo, com IJ.

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